Dinheiro público, um senador, uma mansão e um escritório que ninguém conhece

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Com propósito de receber o seu eleitorado, o senador Edison Lobão (PMDB-MA) aluga uma mansão, na Rua dos Búzios, no bairro Calhau, uma das áreas mais nobres de São Luís, no Maranhão. O imóvel está locado ao custo de R$ 14 mil e o valor é pago pelo Senado, com a maldita verba indenizatória. No entanto, não existe qualquer sinal de que eleitores sejam recebidos por Lobão no local, com amplo espaço e área de lazer com piscina.

Para que o político atenda o eleitorado em um escritório físico em seu estado. Na prática, a mansão com piscina escolhida por Lobão não tem qualquer identificação ou sinal de que ali funcione um escritório de representação política do senador, muito menos que receba seu eleitorado.

Além do alto valor que o imóvel custa aos cofres públicos, o eleitorado do maranhense sequer sabe da existência do escritório, que deveria servir como área de apoio para que o parlamentar recebesse as demandas da sua comunidade. No site de Lobão, bem como em suas redes sociais, também não há qualquer informação sobre a casa. Entre janeiro de 2015 a novembro de 2017, o imóvel, fora gastos com luz e água, já custou R$ 416,7 mil ao Senado, ou seja, aos bolsos dos brasileiros.

Questionada, a assessoria do senador informou que o “escritório está localizado em um imóvel que fica no bairro do calhau. O valor está dentro do valor de mercado nesta região para um imóvel já mobiliado”. Além disso, ressaltou que o segundo suplente de Lobão, Pastor Bel (PRTB-MA), já em exercício, “manterá o escritório em funcionamento”.

Escritório desconhecido

Nos primeiros contatos, realizados em dezembro, antes de Edison Lobão sair de licença, no gabinete do parlamentar em Brasília, ninguém soube informar endereço e nem telefone do escritório, tendo uma das funcionárias dito que "o senador não tem escritório em São Luis" . Indicaram que a reportagem ligasse no PMDB no estado. No PMDB no Maranhão, funcionários que atenderam a ligação alegaram desconhecer o escritório do peemedebista na região. A reportagem entrou em contato nos comércios aos arredores da casa, mas ninguém sabia da existência de uma representação política de Lobão no bairro, nem de qualquer outro político.

Após sucessivos contatos com o gabinete do senador em Brasília, os servidores informaram um número de telefone, mas não souberam dizer o endereço. Em contato com o telefone informado pela assessoria, uma pessoa, que se apresentou como jardineiro Zé Filho, disse que o local abriga o escritório do senador, mas que nunca o viu por lá. “Nunca vi esse rapaz por aqui”, afirmou ao ser questionado se o senador ia muito ao local.

De filho para pai

O imóvel foi inicialmente locado por Edison Lobão Filho (PMDB-MA), que é o primeiro suplente de Lobão na Casa. A locação foi realizada em abril de 2011, quando Lobinho, como também é conhecido o filho de Lobão, estava à frente do gabinete do pai. Na época, o contrato de aluguel foi realizado ao custo de R$ 10 mil mensais. Em nome do filho, o imóvel foi pago pelo Senado até janeiro de 2015. Em março daquele ano, já sob os cuidados de Lobão pai, a casa passou a custar R$ 12 mil mensais e, com os sucessivos aumentos, no último ano já custava aos cofres públicos R$ 14 mil.

Ao todo, desde que o imóvel foi alugado pelos Lobão, pouco mais de R$ 880 mil (incluindo conta de água e luz) já foram consumidos dos cofres públicos, por um local que sequer é utilizado para o devido fim. Em orçamento feito pela reportagem, em sites especializados em locação de imóveis e imobiliárias da região, o aluguel da casa foi avaliado em uma média de R$4 e R$ 6 mil. O valor mais alto levando em consideração a casa ser mobiliada. O valor pago pelo Senado representa mais que o dobro do cobrado em uma das casas mais caras da região.

A proprietária do imóvel onde funciona o escritório de Lobão é Thereza de Maria Villas Boas Santos, mãe do advogado Ruy Eduardo Villas Boas Santos, que defende Lobão filho há anos, inclusive em causa trabalhista da Rádio e TV Difusora do Maranhão, afiliada do SBT no Estado, em que o filho do parlamentar é um dos sócios.

Edinho, como é conhecido, assumiu o cargo do pai no Senado quando ele deixou sua cadeira no Congresso para comandar o Ministério de Minas e Energia, em 2008, durante o segundo mandato do governo Lula. Depois, novamente, em 2011, no governo Dilma Rousseff.

Um dia antes de sair de licença por 120 dias, no dia 17 de dezembro do ano passado, o peemedebista entregou ao Senado uma carta dizendo que seu segundo suplente, Pastor Bel, ficaria responsável por seu escritório de apoio durante o período de 18 de dezembro de 2017 a 19 de abril de 2018. Desde que assumiu, Bel ainda não apresentou nenhuma nota de ressarcimento referente ao aluguel da casa.

O caso foi descoberto pela Operação Política Supervisionada (OPS), organização da sociedade civil conhecida por fiscalizar o uso de recursos públicos e, em especial, da verba indenizatória. Até o momento, segundo a própria OPS, mais de R$ 5,5 milhões já foram poupados desde o início de suas atividades, em 2013.

As fotos e importantes informações foram cedidas por Felipe Alexandre, colaborador da OPS e morador da capital maranhense.

Investigações no STF

O senador é investigado em pelo menos cinco inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF). Entre outras acusações, o parlamentar é suspeito de “lavagem” ou ocultação de bens, direitos ou valores oriundos de corrupção, formação de quadrilha ou bando e corrupção passiva.

Entre as investigações, Lobão é suspeito de receber propina para a construção da usina de Angra 3. Além disso, Paulo Roberto Costa, ex-diretor de abastecimento da Petrobras, afirmou, em delação premiada, que teria repassado R$ 2 milhões à ex-governadora do Maranhão Roseana Sarney a pedido de Lobão. O valor seria para a campanha da então candidata ao governo do estado em 2010.

Além da Lava Jato, Lobão é investigado por suspeita de ser sócio oculto de companhia sediada nas Ilhas Cayman. O grupo empresarial Diamons Mountain se encarregaria de captar recursos de fundos de pensão de estatais e empresas privadas que estivessem sob influência do PMDB. Ex-sócios do empreendimento afirmam ter operado em nome de Lobão.

O senador também teve o nome envolvido em suposta fraude no fundo de pensão Petros, dos funcionários da Petrobras. As fraudes teriam ocorrido entre 2006 a 2011 e teriam aberto um rombo de R$ 5,6 milhões no plano de benefícios dos participantes do fundo.

Escrito por Lúcio Big

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